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CARLOS MENDES - ex-libris de uma época singular
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CARLOS MENDES - ex-libris de uma época singular

O Carlos Mendes é mais uma daquelas figuras actualmente quase invisiveis da nossa cultura. Até as referencias, na Internet, são raras. Salva-se a sua página no Myspace, e a Wikipedia (onde se encontra quase tudo sobre quase tudo), onde consegui arranjar um conjunto de informação minimamente relevante sobre ele, para poder incluir aqui alguns dados biográficos, e alguns recantos da Blogosfera onde alguns teimosos ainda fazem milagres pela memória colectiva deste povo. É lamentável que assim seja, pois o Carlos é uma das figuras de relevo na história da musica ligeira portuguesa, excelente compositor e cantor, e hoje em dia, para a nossa mais recente geração, não passará de um ‘cota’ armado em actor que por vezes aparece numas novelas, e por curiosidade é pai do Francisco Mendes, que é aquele gajo porreiro que apresenta um programa de musica semanal na TV, ao lado daquela ‘chavala muita groooossa’, de seu nome Isabel Figueiras.
Pois bem, miúdagem, Carlos Mendes foi muito mais que isso, e só não o é ainda porque, como já sabemos, nós descartamos fácilmente tudo o que não é jovem e viçoso, e relegamos para o esquecimento quem ajudou a construir a identidade cultural, (neste caso, musical), desta nação. Há algumas excepções a esta regra, sobre as quais se constrói em exagero uma admiração que se nega a todos os outros. A Simone, o Ruy de Carvalho e a Eunice Munoz merecem muitos aplausos, mas tanta ovação de pé já chateia, especialmente quando facilmente se percebe que metade daquilo é apenas fruto do chamado ‘efeito-rebanho’.
Carlos Mendes nasceu em 1947 e foi um dos membros fundadores dos Sheiks, uma banda á frente do seu tempo (em Portugal, pois lá por fora já tinhamos Beatles e companhia) que ajudou a abrir os horizontes musicais nacionais. Pelos Sheiks passaram tambem Paulo de Carvalho e Fernando Tordo, que voltariam a partilhar um feliz projecto musical com Carlos Mendes já no inicio da década de 90, intitulado “Só nós três”.
Quando Carlos deixou os Sheiks, no inicio da década de 70, enveredou por uma carreira a solo que iria dar, primeiramente origem a dois albuns de originais, em 1976 e 1977, respectivamente “Amor Combate” e “Canções de Ex-cravo e Malviver” repletos de brilhantes momentos musicais de sua autoría, sobre intemporais poemas de Joaquim Pessoa. Dois discos marcantes, considerados dos melhores da década de 70, com orquestrações monumentais do maestro Pedro Osório, numa muito feliz e irrepetivel conjugação de talentos. É uma fase extraordinária da musica ligeira portuguesa, muito provávelmente irrepetivel, marcada pelo fervilhar revolucionário, em que o talento de grandes poetas, cantores, compositores e orquestradores, exacerbado pelo afluxo de adrenalina que é comum a todos os periodos de grandes mudanças ideológicas e sociais, convergia e desaguava num revolto mar de inspiração, genialidade e criatividade musicais.
Ainda antes, em 1972, Carlos Mendes havia participado num pré-revolucionário projecto musical, gravado em Espanha (ainda estávamos no regime Salazarista) ainda hoje considerado, nos meios entendidos, como um dos mais marcantes discos da história da musica portuguesa. Trata-se de “Fala de um homem nascido”, com poemas de António Gedeão e musicas de José Niza, gravado a quatro vozes, na companhia de Samuel (outro enjeitado ‘fantasma’ do nosso passado musical) , Tonicha e Duarte Mendes.
Apesar dele se ter mantido em actividade intermitente na musica até finais da década de 90 (o seu ultimo album data de 1999), é este periodo e estes trabalhos da década de 70 que servem de mote a esta minha singela homenagem, já que considero que algumas dessas canções são das peças mais preciosas que já se fizeram em Portugal na area da musica ligeira, e estão profundamente esquecidas e desprezadas no fundo do bafiento baú da nossa identidade cultural, com a eventual excepção do clássico “Amélia dos olhos doces”. Considerando que quando estes discos foram editados eu tinha apenas cerca de 10 anos de idade, continuo a perguntar-me como é que eu mantive estas canções na memória durante décadas, mesmo sem mais as ter ouvido, para as voltar a reencontrar agora, nos ultimos anos, já perto dos meus 40. É que, na minha busca por peças raras e dificeis de encontrar da nossa musica, tive a sorte de conseguir, nos ultimos anos, encontrar em CD o disco “Fala do homem nascido”, e ainda uma colectanea do Carlos Mendes incluída na valiosa colecção “Clássicos da Renascença”, (iniciativa digna, essa sim, de ovação de pé, da Rádio Renascença), a qual permitiu recuperar muito do património musical nacional, perdido desde os tempos do vinil. Para além do “Festa da Vida”, canção que ele levou ao festival em 1972, peça menor neste lote, é desses dois discos que efectuei a selecção que podem ouvir a seguir, na playlist.
Actualmente ele está, ao que tudo indica, definitivamente desligado, comercialmente, da musica, e vai cantando apenas quando quer e lhe apetece. Se calhar é esta a forma mais correcta de não sofrer com o esquecimento a que foi votado por um país e uma cidade (Lisboa) que o viu nascer e que ele tão bem soube cantar.
Achei curioso vê-lo aqui há tempos na TV, no programa ‘A minha geração’, apresentado pela Catarina Furtado. Foi pena ter sido ‘forçado’ a cantar o já dispensável “Festa da vida”, quando tinha o quase obrigatório “Amélia” para cantar, ou até algumas das restantes canções esquecidas que aqui hoje relembro. Mais triste foi ver, na breve entrevista com a Catarina, o Carlos a falar destes seus discos da década de 70, relembrar em pormenor a canção “Alcácer que vier” e ver a Catarina reagir como se ele estivesse a falar chinês. Sinais dos tempos...
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Alinhamento da Playlist, com excertos das minhas 7 canções preferidas de Carlos Mendes :
- "Alcácer que vier" - 1976 - album 'Amor combate'
- "Amélia dos olhos doces" - 1977 - album 'Canções de Ex-cravo e Malviver’
- "Calçada de Carriche" - 1972 - album 'Fala do homem nascido'
- "Festa da vida" - 1972 – canção vencedora do Festival da canção
- "Lisboa, meu amor" - 1977 - album 'Canções de Ex-cravo e Malviver’
- "Poema do fecho eclair" - 1972 - album 'Fala do homem nascido’
- "Ruas de Lisboa" - 1977 - album 'Canções de Ex-cravo e Malviver’
Clicar aqui, para as ouvir:
http://www.divshare.com/download/5716560-61d
Outros links
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Página pessoal de Carlos Mendes:
http://www.myspace.com/carlosmendesmusico
Do espectaculo "Só nós três", com Tordo e Paulo de Carvalho, "Alcacer que vier" e outras
http://www.youtube.com/watch?v=XmBqiKbMuUI
Gravação amadora de um espectaculo em Grandola, em 2008. O tema é "Vagabundo do mar" :
http://www.youtube.com/watch?v=83hgjbooRYM

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