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PEDRO BARROSO - o ultimo dos trovadores?
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PEDRO BARROSO - o ultimo dos trovadores?

Há um par de anos atrás, tive uma consulta marcada no consultório de alguém que dava pelo nome de Dr. Pedro Barroso. Achei piada a coincidência e, claro, veio-me de imediato á lembrança o outro Pedro Barroso, o poeta, o trovador, o pensador, o escritor, o musico.
Quando estava no consultório, em conversa com a recepcionista, referi por graça a coincidência de nomes, mas a senhora, do alto dos seus aparentes trinta e picos anos, olhou para mim com estranheza, e comentou “Pedro Barroso, musico? Nunca ouvi falar!”.
Se bem que a vergonha devia ser toda dela, eu fiquei desconcertado por momentos, não por ela, mas por mim, e não pude deixar de me sentir uma espécie de E.T., de alguma forma desenquadrado deste meio, desta terra, desta gente. Por outras palavras, apeteceu-me dizer “tirem-me deste filme!”. E enquanto deixava aquele consultório para trás, ia-me perguntando “como raio é que ...? Enfim... ela não tem 20 anos, tem ar de trinta e tais... podia até não gostar dele, mas ... dizer que nunca ouviu falar ?” Enfim...
Meses mais tarde, fui assistir ao meu segundo concerto do Pedro Barroso (o primeiro já tinha sido há 20 anos!), numa das raras vezes em que ele desceu á cidade, num final de tarde no Teatro Armando Cortez, na Casa do Artista. Estava lá uma duzia de gatos pingados. Uma duzia e mais eu, a minha mulher, e a minha filhota, na altura com 4 anos.
Nessa altura eu compreendi o que tinha acontecido naquele consultório, meses antes. Algures durante o espectaculo, entremeado de musica, meditações verbalizadas e umas histórias engraçadas que ele ia contando, o Pedro disse algo como “no tempo em que eu era vivo, aconteceu-me ...”, e depois explicou-se : “sim, houve um tempo em que eu estava vivo, eu existia, para este país, para os Media, para os responsáveis pela Cultura. Actualmente, para eles eu já estou morto.”. As palavras podem não ter sido textualmente estas, mas está próximo da verdade. Muita gente não sabe quem é o Pedro Barroso, porque quem tem a obrigação de mostrar ao povo quem é o Pedro Barroso, o seu talento e o seu trabalho, acha que ele já não está vivo. Portanto, esta minha singela homenagem é uma celebração de vida do Pedro, para todos os que acham que o Pedro já não existe, e para todos os outros que ainda não sabiam que um dia nasceu, felizmente para nós, aqui neste canto luso.
Eu chamei-lhe, no titulo deste tópico, ‘o ultimo dos trovadores'. Mais precisamente, questionei. Não é uma expressão nova, já foi usada antes, para o qualificar. E sê-lo-á, decerto. É definitivamente uma espécie em vias de extinção, o trovador: um homem, uma guitarra, um ideal libertador, a inspiração a brotar das coisas belas e simples da vida, como o amor, a Mulher, os amigos, a terra, as gentes. Actualmente um trovador seria socialmente inadaptado, constantemente em colisão com a sociedade capitalista, competitiva e desumanizada. É isso que o Pedro é, e ele assume-o publicamente e sem problemas. Escolheu viver em Riachos, sua terra natal (enfim, nasceu em Lisboa, mas foi só por causa da Maternidade), em plena leziria ribatejana, com horizontes largos, e amigos e cavalos e flores, e deixou as festas, os cocktails e as recepções sociais, mas tambem neuras, o stress, o transito, as multidões, as competições, as sabujices as quezilias e os enfartes e ataques cardiacos para quem os queira viver (ou ... não lhes possa fugir, o que infelizmente tambem acontece). E canta! Ainda. E, pasme-se, grava discos! Tem agora 59 anos, e o peso dos anos trouxe-lhe tambem o peso dos quilos, que ele não renega. É um bom garfo, gosta do que de melhor nós temos, em gastronomia. E engoooorda! Muito. Demasiado já. E sabe os riscos que corre, mas ... se é feliz assim...assim seja. Mas continua com aquela voz vibrante, pujante, intensa, imensa, que dispensa amplificações, e o discurso vivo de quem nasceu para comunicar, e a gargalhada franca de quem nada tem a esconder. E depois... há aquela figura simpática, de cabelo rebelde, a roçar o encaracolado, e uma barba grisalha, o que, conjugados com o seu avantajado porte fisico ainda é o melhor retrato que eu conheço de um genuino e ternurento... Pai Natal ! Numa palavra: bonacheirão. E quem o conhece mais de perto que se atreva a desmentir-me!
Estimo que o periodo em que ele ‘era vivo’ terminou algures no final da decada de 80, principio da de 90. Coincidiu com o fim de uma era em que se promoveu conjuntamente a musica popular, e a tradicional, e a ligeira, e a rockeira portuguesa como nunca antes e nunca depois. Lembro-me que os conjuntos de musica popular portuguesa, de raizes tradicionais, com os seus bombos, pandeiretas e cavaquinhos nasciam como cogumelos, ouviam-se em todas as rádios, iam á TV quase todos os dias, ocupavam lugares em tops de vendas.
São dessa fase (finais dos anos 70 e anos 80) as obras-primas do Pedro Barroso. Inspiradissimas canções, de uma beleza pura, singela, tocante, enternecedora. Curiosamente foi nessa altura que ele gravou, em 1982 a canção que provavelmente mais sucesso comercial lhe trouxe, e que aparentemente ele mais renega hoje em dia: o “Cantar brejeiro”, mais conhecido pelo povo como a cantiga da “Perninha da menina”, canção que foi simultaneamente benção e castigo. Provavelmente, já nem a cantará actualmente (pelo menos no espectaculo que vi não o fez). Foi uma canção animada e popularucha, bem construida dentro do género, mas que se demarcava do caminho trovadoresco do cant’autor, e que transmitiu a muita gente que não o conhecia, uma ideia errada acerca da sua orientação musical.
Pedro Barroso continua a ter o seu publico, e os seus espectaculos, aqui e ali, quase sempre fora dos grandes centros urbanos. O ultimo disco de originais que gravou foi no ano passado (2008). Actualmente admito que já não tem a inspiração musical de outros tempos, ou não quer ter, sei lá... Transformou-se num ser mais e mais pensante, meditativo, talvez melancólico, e o seu trabalho evoluiu muito para algo entre a prosa e poesia, mas densa apesar de musicada, e meio declamada, que sinceramente, já não faz o meu genero. Admito, contudo, que não lhe conheço profundamente todos os discos que gravou nos ultimos 15 anos. Mas dos que ouvi... bem...como ele próprio contou, tem um amigo que lhe diz que quando ele troca a guitarra pelo piano, fica um chato do caraças! Mas ouvi-lo, em disco ou ao vivo, continua a ser uma experiencia distinta de tudo o resto, porque Pedro Barroso só há este, e quando este acabar ficará por cá um vazio impossivel de preencher. E ...“se houver alguem que não goste, não gaste, deixe ficar...”, porque “é tão dificil encontrar pessoas assim, bonitas”, que gritem aos quatro ventos “viva quem canta, que quem canta é quem diz, quem diz o que vai no peito, no peito vai-me um país!”.
PS – como mera curiosidade, o Pedro Barroso é pai do Nuno Barroso, compositor e cantor dos Além-Mar, e que mais recentemente se aventurou a solo.

Jotace- Membro V.I.P.

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Idade: 45
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Data de inscrição: 25/11/2008
Re: PEDRO BARROSO - o ultimo dos trovadores?
- Parabéns. Dou os meus sinceros PARABÉNS ao Jotace pelo testemunho vivo que nos dá do PEDRO BARROSO. Concordo plenamente com o que diz deste excelente trovador, o escritor, o poeta, o compositor, o pensador, o músico. Admiro-me, como um cantor que reúne aquelas características todas é quase posto ao ostracionismo do grande público. Em lugar dele tentam impingir-nos aquelas músicas "pimbescas" e outras de valor bastante duvidoso e de má qualidade, quer nacionais e estrangeiras, que nos fazem passar na rádio e outros meios de comunicação social, fazendo prevalecer apenas o interesse comercial em detrimento do que devia ser ser o verdadeiro interesse das pessoas que a ouvem, música de qualidade.
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