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O "Escritor de Canções"
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O "Escritor de Canções"
O ESCRITOR DE CANÇÕES

No principio era o Verbo, e o Sérgio estava com ele, e o Sérgio era ele.
O Verbo, feito gente, no Sérgio, sinónimo maisculo da arte de escrever sobre as simplicidades da vida em abençoada comunhão com a música.
“A principio é simples, anda-se sozinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no burburinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida”.
No principio da década de 80, com menos de 13 anos de idade, foram estas palavras, primeiras de uma canção intitulada “Primeiro dia”, do album “Pano Cru” de 1978, que me despertaram para a a arte de Sérgio Godinho. Eu, que pouco ligava a palavras escritas, de repente era invadido pela fluência do poema no embalo da melodia. Num ápice, decorei todo o poema, apaixonei-me pela canção, e logo após, por este escritor de canções.
O Sérgio pertence aquele grupo de individuos que mereciam ser milionários pelo que de bom a sua arte trouxe a este povo. Estranhamente, passados quase 40 anos de carreira, nenhum dos seus albuns de originais vendeu por aí alem (parece que o melhor que conseguiu até agora foi um disco de prata...). Apesar de toda a gente saber quem ele é, muitos lhe fazerem a devida vénia, e a critica aclamar quase todos os seus trabalhos, ele parece continuar a funcionar para este povo assim como uma especie de Cristo Rei : todos sabem que existe, mas poucos lá foram visitá-lo. Acham-no bonito, como simbolo, mas só lhe conhecem a fachada.
Não é que de facto o Sérgio se importe muito com o facto de não ter conseguido viver faustosamente á custa da sua musica. Ele é o tipo de individuo que, mesmo com os seus mais de 60 anos de idade, mantem gostos simples e perfil humilde, e a sua maior riqueza continua a ser a sua experiencia de vida. O homem fugiu ao serviço militar, para a Europa, onde estudou psicologia, viveu a revolução de Abril, tendo ficado marcado para sempre com o estigma de cantor de intervenção, depois correu meio mundo, foi hippie, esteve preso 2 vezes, fez teatro e musica para teatro, cinema e musica para cinema e para crianças, trabalhou e continua a trabalhar na musica com nomes grandes e pequenos, de antigas e novas gerações, sempre com a mesma humildade e vontade de aprender, sempre colaborando, nunca impondo. E por isso, não existe, decerto, musico neste país que não tenha feito ou deseje um dia, fazer musica com o Sérgio, pelo prazer da musica.
Sou um músico. E na música englobo as palavras -nesse aspecto sou um poeta; englobo o estar no palco - nesse aspecto sou um cantor; e sou também um compositor, porque faço melodias a partir de coisas que vou escolhendo. Um músico usa tudo, as palavras, o palco… não consigo separar…"
"O cantar acaba por ser a consequência natural das canções serem compostas. É um pouco como um script de cinema, ou uma peça teatral, que só existem se forem representadas e para serem representadas"
"O teatro é uma coisa que em mim sempre foi natural, já que a minha formação também foi de actor, e só não faço mais teatro porque me ocupa demasiado tempo e tem que haver escolhas"
Sérgio Godinho, escritor de canções. Palavras feitas musica, como poucos mais conseguem, num casamento simples e complexo, que torna tão dificil a qualquer outro cantar as suas canções sem que lhe falte o ar a meio das frases, ou se lhes enrole a lingua com uma rima mais traiçoeira. Os tempos musicais do Sérgio, são dele, apenas. A arte de bem fazer musica, inovando a cada novo passo, é dele tambem. O Trovador soube amadurecer em maré alta, nunca caindo na tão comum armadilha de se tornar uma sombra de si mesmo. Se já teve periodos melhores ? Para mim, sim. Mas mais por culpa da sua necessidade de inovar do que por falta de genialidade. Algumas experiencias resultam menos bem. Este ultimos trabalhos parecem ser um exemplo disso mesmo, infelizmente.
Os melhores momentos criativos, musicalmente falando, na minha opinião (falando apenas dos discos de originais) estão em :
- Pano Cru (1978)
- Campolide (1979)
- Canto da Boca (1981)
- Coincidencias (1983)
- Na vida real (1986)
Mas, se falarmos de poemas, não devemos deixar nenhum dos seus quase 20 albuns de originais de fora. Bem....talvez o disco infantil, eheheh.
Esta foi a minha modesta homenagem ao maior dos meus heróis na musica portuguesa, um dos poucos que conseguiu não se deixar engolir pelas areias do tempo.
E eu, que até não sou muito dado a poesias, termino com um excerto de um belo poema de uma das suas mais brilhantes canções (na minha opinião, claro): ‘Lisboa que amanhece’, de 1986.
“Cansados vão os corpos para casa
dos ritmos imitados de outra dança
A noite finge ser ainda uma criança
de olhos na lua, na sua
cegueira da razão e do desejo.
Não sei se dura sempre esse teu beijo
ou apenas o que resta desta noite.
O vento enfim parou; já mal o vejo
por sobre o Tejo, e já tudo pode ser
tudo aquilo que parece
na Lisboa que amanhece”

No principio era o Verbo, e o Sérgio estava com ele, e o Sérgio era ele.
O Verbo, feito gente, no Sérgio, sinónimo maisculo da arte de escrever sobre as simplicidades da vida em abençoada comunhão com a música.
“A principio é simples, anda-se sozinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no burburinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida”.
No principio da década de 80, com menos de 13 anos de idade, foram estas palavras, primeiras de uma canção intitulada “Primeiro dia”, do album “Pano Cru” de 1978, que me despertaram para a a arte de Sérgio Godinho. Eu, que pouco ligava a palavras escritas, de repente era invadido pela fluência do poema no embalo da melodia. Num ápice, decorei todo o poema, apaixonei-me pela canção, e logo após, por este escritor de canções.
O Sérgio pertence aquele grupo de individuos que mereciam ser milionários pelo que de bom a sua arte trouxe a este povo. Estranhamente, passados quase 40 anos de carreira, nenhum dos seus albuns de originais vendeu por aí alem (parece que o melhor que conseguiu até agora foi um disco de prata...). Apesar de toda a gente saber quem ele é, muitos lhe fazerem a devida vénia, e a critica aclamar quase todos os seus trabalhos, ele parece continuar a funcionar para este povo assim como uma especie de Cristo Rei : todos sabem que existe, mas poucos lá foram visitá-lo. Acham-no bonito, como simbolo, mas só lhe conhecem a fachada.
Não é que de facto o Sérgio se importe muito com o facto de não ter conseguido viver faustosamente á custa da sua musica. Ele é o tipo de individuo que, mesmo com os seus mais de 60 anos de idade, mantem gostos simples e perfil humilde, e a sua maior riqueza continua a ser a sua experiencia de vida. O homem fugiu ao serviço militar, para a Europa, onde estudou psicologia, viveu a revolução de Abril, tendo ficado marcado para sempre com o estigma de cantor de intervenção, depois correu meio mundo, foi hippie, esteve preso 2 vezes, fez teatro e musica para teatro, cinema e musica para cinema e para crianças, trabalhou e continua a trabalhar na musica com nomes grandes e pequenos, de antigas e novas gerações, sempre com a mesma humildade e vontade de aprender, sempre colaborando, nunca impondo. E por isso, não existe, decerto, musico neste país que não tenha feito ou deseje um dia, fazer musica com o Sérgio, pelo prazer da musica.
Sou um músico. E na música englobo as palavras -nesse aspecto sou um poeta; englobo o estar no palco - nesse aspecto sou um cantor; e sou também um compositor, porque faço melodias a partir de coisas que vou escolhendo. Um músico usa tudo, as palavras, o palco… não consigo separar…"
"O cantar acaba por ser a consequência natural das canções serem compostas. É um pouco como um script de cinema, ou uma peça teatral, que só existem se forem representadas e para serem representadas"
"O teatro é uma coisa que em mim sempre foi natural, já que a minha formação também foi de actor, e só não faço mais teatro porque me ocupa demasiado tempo e tem que haver escolhas"
Sérgio Godinho, escritor de canções. Palavras feitas musica, como poucos mais conseguem, num casamento simples e complexo, que torna tão dificil a qualquer outro cantar as suas canções sem que lhe falte o ar a meio das frases, ou se lhes enrole a lingua com uma rima mais traiçoeira. Os tempos musicais do Sérgio, são dele, apenas. A arte de bem fazer musica, inovando a cada novo passo, é dele tambem. O Trovador soube amadurecer em maré alta, nunca caindo na tão comum armadilha de se tornar uma sombra de si mesmo. Se já teve periodos melhores ? Para mim, sim. Mas mais por culpa da sua necessidade de inovar do que por falta de genialidade. Algumas experiencias resultam menos bem. Este ultimos trabalhos parecem ser um exemplo disso mesmo, infelizmente.
Os melhores momentos criativos, musicalmente falando, na minha opinião (falando apenas dos discos de originais) estão em :
- Pano Cru (1978)
- Campolide (1979)
- Canto da Boca (1981)
- Coincidencias (1983)
- Na vida real (1986)
Mas, se falarmos de poemas, não devemos deixar nenhum dos seus quase 20 albuns de originais de fora. Bem....talvez o disco infantil, eheheh.
Esta foi a minha modesta homenagem ao maior dos meus heróis na musica portuguesa, um dos poucos que conseguiu não se deixar engolir pelas areias do tempo.
E eu, que até não sou muito dado a poesias, termino com um excerto de um belo poema de uma das suas mais brilhantes canções (na minha opinião, claro): ‘Lisboa que amanhece’, de 1986.
“Cansados vão os corpos para casa
dos ritmos imitados de outra dança
A noite finge ser ainda uma criança
de olhos na lua, na sua
cegueira da razão e do desejo.
Não sei se dura sempre esse teu beijo
ou apenas o que resta desta noite.
O vento enfim parou; já mal o vejo
por sobre o Tejo, e já tudo pode ser
tudo aquilo que parece
na Lisboa que amanhece”

Jotace- Membro V.I.P.

- Sexo:
Idade: 44
Pontos: 2085
Data de inscrição: 25/11/2008
Re: O "Escritor de Canções"
Escritor de canções?
Nunca vi o Godinho nessa prespectiva, para mim, ele marcou a minha geração dando voz a uma nova democracia que estava a nascer.
Ele cantava o que o Povo até tinha receio de susurrar.

Mas os tempos voltam e pareçe que Portugal já não possui Democracia e até o Sérgio Godinho nos manda calar!
Nunca vi o Godinho nessa prespectiva, para mim, ele marcou a minha geração dando voz a uma nova democracia que estava a nascer.
Ele cantava o que o Povo até tinha receio de susurrar.

Mas os tempos voltam e pareçe que Portugal já não possui Democracia e até o Sérgio Godinho nos manda calar!

MClara- Convidado
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