Sentir com a imaginação, acorrentar a Alma ao pensamento e escrever á velocidade que o vento despenteia os meus cabelos.
Mente inquieta, pensamentos confusos que o poeta tenta ordenar em frases coeerentes, como se tal fosse tarefa facil.
Escrever á velocidade do pensamento quando se vagueia de ideia em ideia á velocidade da luz, do vento, de um cheiro, até de um sonho que se almeja.
Refugiar-se num mundo onde apenas eu, a minha caneta, o meu caderno e deixar vaguear a escrita por folhas virgens. Iniciar uma história, escrevinhar uma crónica, um poema, prosa, talvez dar o começo a algo que até nem se sabe bem o quê.
- Ao longe ouço o murmurio da água de uma fonte artificial criada pelo homem para quebrar a monotomia das grandes cidades, uma mãe que fala com carinho ao seu filho, o sussuro do vento ao passar pelas arvore das magnólias e pessoas.
Pessoas que se deslocam com pressa, pressa de chegar a algum lado, ou a lado nenhum e ainda nem deram por isso.
Á estilo de Fernando Pessoa, saboreio o meu café, observo o espaço que me rodeia, tentando entrar naquele mundo do Poeta, feito de Alma e Imaginação.
Duas jovens passam, sorriem, reparo no riso do seu olhar, trejeitos e geitos de quem partilha as tropelias da folia do Carnaval, porque hoje já não há festa, a vida retoma o seu curso normal, as pessoas voltaram ao seu trabalho diário, aqueles poucos ainda que tem a sorte de dizer e de terem um trabalho á espera numa quarta-feira de Cinzas.
Cinzas que alastram por um País, por uma economia, por uma decadência financeira generalizada, na qual as palavras nada valem e muito menos as promessas, os actos dos nossos governantes passam impunes na gestão dos recursos quer financeiros, quer humanos deste País que depende de tudo, de todos, menos da iniciativa privada do português.
A bem da verdade não consigo mergulhar na imaginação que Fernando Pessoa possuía e muito menos escrever poesia quando hoje ás 14 horas fui à Conservatória do Registo Civil para levantar o meu cartão de cidadã e ordens superiores dizem, não podemos atender mais ninguém, o número de utentes para atendimento está ultrapassado.
Ordens superiores tecnológicas, mas afinal a tecnologia não tem como objectivo a simplificação?
Simples ou complicado, talvez mais complicado, estamos demasiado tecnológicos, dependemos dos sistemas, informático, humano, tecnologico e perdemos tempo, tempo que necessitamos para algo util que faça progredir este país, criar postos de emprego, por exemplo.
Mas pensando melhor até numa crise se pode criar mais postos de trabalho, alargar as ruas e passeios onde se encontram os serviços sociais de centros de emprego e segurança social, para as filas que engrossam diariamente, colocar até uns banquinhos e quem sabe aproveitar para com tantos ajuntamentos diários fazer politica e fazer uns comícios com muitas promessas a incumprir.
Ouço aqui, ouço acolá e agora sim a minha imaginação voa, bateu asas até um Portugal em Cinzas e não me estou a referir aos fogos de 2005, mas Cinzas de um País, em que as pessoas já não conseguem pagar rendas, seguros, adquirir habitação, pagar contas mínimas de água e luz, vejo a criminalidade a aumentar, jovens sem emprego, fábricas a fechar, outras em ameaça de fecho á espera de uns subsidios.
E não é um País em Cinzas?
Ouço aqui, ouço acolá e tenho a noção que se continua a tentar “tapar o sol com a peneira”, com a construção de obras megalómanas desnecessárias relacionadas com a acessibilidade rodoviaria, e Portugal é tão pequenino, atravessa-se de ponta a ponta em 5 horas, ou será que se adivinha a junção da Península ibérica à moda do antigo Tratado de Tordesilhas?
Pergunto eu não será mais importante manter os cuidados de saúde mínimos, os apoios á terceira idade, dar emprego aos mais jovens? Criar futuro?
Ouço aqui, ouço acolá cerca de 20.000 abortos mas afinal quem consegue ter filhos nos tempos de hoje? Não será irresponsabilidade te-los em vez de aborta-los?
Renovo a questão como ser Poeta quando apenas se encontra no dia a dia pessoas com problemas, quando aos 40 anos em Portugal se fica no fim da fila para emprego, onde está a Poesia de em cada 10 amigos 8 estão com problemas?
Não existe Poesia com barriga vazia, contas a pagar, resta a Prosa que sem rima, lá vai fazendo relatos de cinzas, à espera do renascimento da Fénix..