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A Herança
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A Herança
O mundo era-me estranho e vão,
fútil como uma casa sem gente.
De andar e olhar incertos,
certo apenas do meu peito,
esperançado procurei novos lugares…
E eis como, em toda a parte,
como vara fora de água,
se insinua a realidade:
clara, exacta e iniludível.
Nos palcos proclama-se a justiça,
mas atrás das cortinas e das portas
triunfa e alastra a vil mentira:
gente pressurosa de impérios e poder,
sob a bandeira dos humildes avançando,
e pregadores militantes da moral,
vendendo paraísos aos fiéis
e assegurando ventura aos desvalidos,
a coberto do insigne cabeção.
Olho-te estupefacto as misérias
e as chagas inda abertas,
ao ver-te pôr tanto empenho
no que dizes que não crês!…
Herege do teu próprio credo,
fizeste de teu anseio
o sonho adiado que supões cumprido.
Intimidados plo ritmo lancinante dos teus passos,
dessa marcha secular donde brotaste,
quebraram-te as grilhetas e as correntes.
Disseram-te livre
e em tuas mãos depuseram o ceptro do poder.
Tonitruantes anunciaram-te o progresso
e mostraram-te o futuro no horizonte.
Serias tu, agora,
sobre o mundo que ajudaste a derrubar,
construtor dum mundo novo,
juiz e soberano.
Cansado,
arrastando os pés inda sangrentos
e nas mãos sentindo as chagas humilhantes,
paraste a marcha;
e de olhar turvo,
em prece voltado para os céus,
acreditaste.
Oh, infinita sujeição donde não sais!…
Durou pouco essa quimera
que teus amos, dia a dia,
pra que creias no poder que lhes pertence,
te ajudaram e obrigam a sonhar.
Trocaram-te os grilhões por um cartão
e fizeram-te uma carta de direitos
que não são para cumprir.
E tu,
inebriado em tuas vestes novas,
julgas-te livre,
ao escolheres em sufrágio universal
o caminho da tua servidão!…
Adiaste o sonho,
mas estás vivo ainda
e forte de tudo o que não tens.
Levanta a cerviz e acredita
que a Natureza de que és feito regenera.
O caminho a seguir
não o perguntes a ninguém.
Descobre-o tu.
Falas de liberdade,
ufano da que não tens;
e receoso não queres pagar o preço
da que podes exercer todos os dias…
Oh, perplexidade atávica!
Liberdade é bem que não se dá;
só se conquista e nunca é eterna.
Quando julgas que ta deram,
acabaste de a perder.
Livre sempre foste,
como todos são,
mas não te apercebes
em que dimensão!…
Liberdade há uma
e só essa existe:
a capacidade,
que a todos pertence,
de lutarmos sempre
por novos limites.
Acossado e enjaulado
plo juízo que de ti possam fazer,
aceitas e constróis
o atoleiro de aparências
em que te esbanjas e perdes.
O que os outros pensam seres
ou o que dizem de ti
não é aquilo que és…
Isso define-os a eles.
O que te define a ti
é o que dos outros dizes
ou o que pensas que são.
Decide-te,
sai da encruzilhada;
os caminhos têm sempre dois sentidos.
Que temor ou atavismo
não te permite escolher?!…
Não deixes tua alma atada,
nem adies o teu fado.
Só alcançarás proveito,
se antes conseguires perder.
Por feliz casualidade
ou, quiçá, Divino querer,
libertei-me desse jugo.
Aqueles que te iludem para te oprimir
cometeram o erro que me libertou.
Sou pobre em quase tudo,
mas tenho-me por inteiro.
Fórmulas, exemplos,
evoluções da técnica
e dogmas da ciência;
símbolos, regulamentos,
cartas de direitos,
regras de decência…
Oh, deuses!…
Oh, vã canseira de teimar no erro.
Que dogmas mais virão,
que sórdidas leis
ou postulados se farão
pra dominar?
Vis apátridas,
algozes do mundo,
que em vosso andar sedento de poder,
quereis ver moribundo o voo livre
dos que apenas querem ser.
Que ser perene ou eternidade
imaginais pra vós?!…
Sois de vida efémera
e corpo transitório,
tão passageiro e precário
quanto vosso empório.
Também me ensinaram a mesma lição;
indicaram-me as normas,
os processos e o fim.
Mas fizeram-no em vão:
lembraram-se de tudo,
menos de mim.
Neste pluriforme e vasto Cosmos,
que a partir de seus opostos se propaga
e neles incessante se renova,
estéril é a aspiração,
ou imprudente,
dos que tentam pôr fim ao gesto extremo.
O silêncio que cala os corações
está no grito que rompe a mordaça;
pois por mais barreiras que lhe ergam,
por mais que não se queira ou que se faça,
o rio corre sempre para o mar.
fútil como uma casa sem gente.
De andar e olhar incertos,
certo apenas do meu peito,
esperançado procurei novos lugares…
E eis como, em toda a parte,
como vara fora de água,
se insinua a realidade:
clara, exacta e iniludível.
Nos palcos proclama-se a justiça,
mas atrás das cortinas e das portas
triunfa e alastra a vil mentira:
gente pressurosa de impérios e poder,
sob a bandeira dos humildes avançando,
e pregadores militantes da moral,
vendendo paraísos aos fiéis
e assegurando ventura aos desvalidos,
a coberto do insigne cabeção.
Olho-te estupefacto as misérias
e as chagas inda abertas,
ao ver-te pôr tanto empenho
no que dizes que não crês!…
Herege do teu próprio credo,
fizeste de teu anseio
o sonho adiado que supões cumprido.
Intimidados plo ritmo lancinante dos teus passos,
dessa marcha secular donde brotaste,
quebraram-te as grilhetas e as correntes.
Disseram-te livre
e em tuas mãos depuseram o ceptro do poder.
Tonitruantes anunciaram-te o progresso
e mostraram-te o futuro no horizonte.
Serias tu, agora,
sobre o mundo que ajudaste a derrubar,
construtor dum mundo novo,
juiz e soberano.
Cansado,
arrastando os pés inda sangrentos
e nas mãos sentindo as chagas humilhantes,
paraste a marcha;
e de olhar turvo,
em prece voltado para os céus,
acreditaste.
Oh, infinita sujeição donde não sais!…
Durou pouco essa quimera
que teus amos, dia a dia,
pra que creias no poder que lhes pertence,
te ajudaram e obrigam a sonhar.
Trocaram-te os grilhões por um cartão
e fizeram-te uma carta de direitos
que não são para cumprir.
E tu,
inebriado em tuas vestes novas,
julgas-te livre,
ao escolheres em sufrágio universal
o caminho da tua servidão!…
Adiaste o sonho,
mas estás vivo ainda
e forte de tudo o que não tens.
Levanta a cerviz e acredita
que a Natureza de que és feito regenera.
O caminho a seguir
não o perguntes a ninguém.
Descobre-o tu.
Falas de liberdade,
ufano da que não tens;
e receoso não queres pagar o preço
da que podes exercer todos os dias…
Oh, perplexidade atávica!
Liberdade é bem que não se dá;
só se conquista e nunca é eterna.
Quando julgas que ta deram,
acabaste de a perder.
Livre sempre foste,
como todos são,
mas não te apercebes
em que dimensão!…
Liberdade há uma
e só essa existe:
a capacidade,
que a todos pertence,
de lutarmos sempre
por novos limites.
Acossado e enjaulado
plo juízo que de ti possam fazer,
aceitas e constróis
o atoleiro de aparências
em que te esbanjas e perdes.
O que os outros pensam seres
ou o que dizem de ti
não é aquilo que és…
Isso define-os a eles.
O que te define a ti
é o que dos outros dizes
ou o que pensas que são.
Decide-te,
sai da encruzilhada;
os caminhos têm sempre dois sentidos.
Que temor ou atavismo
não te permite escolher?!…
Não deixes tua alma atada,
nem adies o teu fado.
Só alcançarás proveito,
se antes conseguires perder.
Por feliz casualidade
ou, quiçá, Divino querer,
libertei-me desse jugo.
Aqueles que te iludem para te oprimir
cometeram o erro que me libertou.
Sou pobre em quase tudo,
mas tenho-me por inteiro.
Fórmulas, exemplos,
evoluções da técnica
e dogmas da ciência;
símbolos, regulamentos,
cartas de direitos,
regras de decência…
Oh, deuses!…
Oh, vã canseira de teimar no erro.
Que dogmas mais virão,
que sórdidas leis
ou postulados se farão
pra dominar?
Vis apátridas,
algozes do mundo,
que em vosso andar sedento de poder,
quereis ver moribundo o voo livre
dos que apenas querem ser.
Que ser perene ou eternidade
imaginais pra vós?!…
Sois de vida efémera
e corpo transitório,
tão passageiro e precário
quanto vosso empório.
Também me ensinaram a mesma lição;
indicaram-me as normas,
os processos e o fim.
Mas fizeram-no em vão:
lembraram-se de tudo,
menos de mim.
Neste pluriforme e vasto Cosmos,
que a partir de seus opostos se propaga
e neles incessante se renova,
estéril é a aspiração,
ou imprudente,
dos que tentam pôr fim ao gesto extremo.
O silêncio que cala os corações
está no grito que rompe a mordaça;
pois por mais barreiras que lhe ergam,
por mais que não se queira ou que se faça,
o rio corre sempre para o mar.

Convidad- Convidado
Re: A Herança
Pena que tão lindo poema tenho sido escrito por alguem anonimo e que não se identificou
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