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Sinceridade
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Sinceridade
" ...Há um número alarmante de pessoas para quem a sinceridade é um atributo notável. Tanto que anunciam a despropósito e sem puder a sua própria sinceridade, normalmente antes de uma observação desagradável. Funciona assim: "Eu sou sincero: essa camisa fica-lhe mal"
Talvez o leitor já tenha reparado num flagelo que assola a sociedade portuguesa. É o flagelo da sinceridade. Há um número alarmante de pessoas para quem a sinceridade é um atributo estimável. Tanto que, ao que tenho testemunhado com cada vez maior frequência, anunciam a despropósito e sem pudor a sua própria sinceridade, normalmente antes de uma observação desagradável. Funciona assim: "Eu sou sincero: essa camisa fica-lhe mal." Como é evidente, o proprietário da camisa fica duplamente amesquinhado: não só está mal vestido como se encontra junto de uma pessoa sincera. Os nossos defeitos parecem ainda piores quando estamos na presença de alguém que é tão obviamente virtuoso. As pessoas com quem me dou sabem bem o que é carregar esse fardo.
É interessante reparar no modo como o autor deste tipo de frase é, em geral, atormentado pela sua própria nobreza de caráter. Outras pessoas teriam a desonestidade de elogiar aquela camisa, ou fariam um silêncio igualmente condenável. O sincero não pode, uma vez que é sincero. Não é desagradável, nem impertinente, nem descortês. É sincero. No fundo, o que está a dizer é: "Não há nada a fazer. Eu bem me esforço para não ser tão moralmente irrepreensível, mas não consigo. É a mais elevada dignidade que me obriga a dizer-te que tens mau gosto."
No entanto, tenho dificuldade em entender que ser sincero seja uma qualidade. Dizer o que se pensa não tem nada de admirável. Penso eu. É fácil (e todos sabemos que o caminho para a virtude é intrincado), revela sobranceria (que têm as minhas opiniões de tão especial para que eu me sinta no dever de as comunicar aos outros?), e é muitas vezes desagradável (os meus pensamentos são, na esmagadora maioria das vezes, de uma inconveniência assinalável). Creio, aliás, que a vida em sociedade se baseia precisamente na nossa maravilhosa capacidade de não revelar o que pensamos. Sim, eu acho que determinada senhora é gorda, mas não lho vou dizer sobretudo se ela mo perguntar. Claro que o odor corporal de certo indivíduo é desagradável, mas ninguém me convence que eu serei uma pessoa melhor se lhe disser: "Eu sou sincero: o senhor cheira a táxi."
O problema, creio, é que a nossa sociedade está erradamente convencida de que a autenticidade é um valor que se deve prezar. "Sê tu mesmo", ouvimos a toda a hora. "Tu deves ser igual a si próprio", dizem-nos também. São, como é óbvio, maus conselhos. Vamos tentar ser um pouco melhores que isso, digo eu. Só se eu fosse parvo é que seria igual a mim próprio. Trata-se de um caminho que não me levaria a lado nenhum. Por que razão devo ser eu mesmo se, com algum empenho, posso tentar ser uma pessoa decente? Não me choca que Shakespeare e Bach tenham passado pela vida a tentar ser eles mesmos, mas é melhor para o mundo que eu e, por exemplo, Charles Manson, tentemos ser diferentes de nós próprios.
Eu sou sincero: vou continuar a ser dissimulado. "
Autor : Ricardo Araújo Pereira
Revista Visão
Talvez o leitor já tenha reparado num flagelo que assola a sociedade portuguesa. É o flagelo da sinceridade. Há um número alarmante de pessoas para quem a sinceridade é um atributo estimável. Tanto que, ao que tenho testemunhado com cada vez maior frequência, anunciam a despropósito e sem pudor a sua própria sinceridade, normalmente antes de uma observação desagradável. Funciona assim: "Eu sou sincero: essa camisa fica-lhe mal." Como é evidente, o proprietário da camisa fica duplamente amesquinhado: não só está mal vestido como se encontra junto de uma pessoa sincera. Os nossos defeitos parecem ainda piores quando estamos na presença de alguém que é tão obviamente virtuoso. As pessoas com quem me dou sabem bem o que é carregar esse fardo.
É interessante reparar no modo como o autor deste tipo de frase é, em geral, atormentado pela sua própria nobreza de caráter. Outras pessoas teriam a desonestidade de elogiar aquela camisa, ou fariam um silêncio igualmente condenável. O sincero não pode, uma vez que é sincero. Não é desagradável, nem impertinente, nem descortês. É sincero. No fundo, o que está a dizer é: "Não há nada a fazer. Eu bem me esforço para não ser tão moralmente irrepreensível, mas não consigo. É a mais elevada dignidade que me obriga a dizer-te que tens mau gosto."
No entanto, tenho dificuldade em entender que ser sincero seja uma qualidade. Dizer o que se pensa não tem nada de admirável. Penso eu. É fácil (e todos sabemos que o caminho para a virtude é intrincado), revela sobranceria (que têm as minhas opiniões de tão especial para que eu me sinta no dever de as comunicar aos outros?), e é muitas vezes desagradável (os meus pensamentos são, na esmagadora maioria das vezes, de uma inconveniência assinalável). Creio, aliás, que a vida em sociedade se baseia precisamente na nossa maravilhosa capacidade de não revelar o que pensamos. Sim, eu acho que determinada senhora é gorda, mas não lho vou dizer sobretudo se ela mo perguntar. Claro que o odor corporal de certo indivíduo é desagradável, mas ninguém me convence que eu serei uma pessoa melhor se lhe disser: "Eu sou sincero: o senhor cheira a táxi."
O problema, creio, é que a nossa sociedade está erradamente convencida de que a autenticidade é um valor que se deve prezar. "Sê tu mesmo", ouvimos a toda a hora. "Tu deves ser igual a si próprio", dizem-nos também. São, como é óbvio, maus conselhos. Vamos tentar ser um pouco melhores que isso, digo eu. Só se eu fosse parvo é que seria igual a mim próprio. Trata-se de um caminho que não me levaria a lado nenhum. Por que razão devo ser eu mesmo se, com algum empenho, posso tentar ser uma pessoa decente? Não me choca que Shakespeare e Bach tenham passado pela vida a tentar ser eles mesmos, mas é melhor para o mundo que eu e, por exemplo, Charles Manson, tentemos ser diferentes de nós próprios.
Eu sou sincero: vou continuar a ser dissimulado. "
Autor : Ricardo Araújo Pereira
Revista Visão

MClara- Admin
- Sexo:
Idade: 47
Emprego/lazer: Varios
Pontos: 1309
Data de inscrição: 16/03/2010
Re: Sinceridade
"Três coisas precisam os homens: prudência no ânimo, silêncio na língua e vergonha na cara."
Sócrates
"Para saber falar é necessário saber calar-se."
Pitaco
"Se podemos ser doutores pela ciência alheia, também podemos ser sábios pela nossa sabedoria."
Montaigne
"As pessoas que vencem neste mundo são as que procuram as circunstâncias de que precisam e, quando não as encontram, as criam."
Bernard Shaw
Sócrates
"Para saber falar é necessário saber calar-se."
Pitaco
"Se podemos ser doutores pela ciência alheia, também podemos ser sábios pela nossa sabedoria."
Montaigne
"As pessoas que vencem neste mundo são as que procuram as circunstâncias de que precisam e, quando não as encontram, as criam."
Bernard Shaw
Tininha- Membro Efectivo

- Sexo:
Idade: 41
Emprego/lazer: Estudante/trabalhadora/F.P
Pontos: 1225
Data de inscrição: 15/05/2009
Re: Sinceridade
Eu cá sou muito sincero!
E só me faltam 3 coisitas para ser como diz o Sócrates (o filósofo, não o governante).
WiseMax- Membro Activo

- Sexo:
Idade: 64
Emprego/lazer: Dolce farniente
Pontos: 1568
Data de inscrição: 18/01/2009
Re: Sinceridade
E eu cá digo-o com toda a sinceridade. O Ricardo Araújo Pereira ás vezes é brilhante e outra vezes é parvo. E, sinceramente, acho que desta vez não foi brilhante. 
Ser sincero não tem nada a ver com ser inconveniente. Se eu me vir a falar com alguem que tem um pedaço de sardinha agarrado á bochecha eu, com toda a sinceridade, digo-lhe "olhe, parece-me que tem algo na cara", porque naturalmente gostaria que fizessem o mesmo comigo, em vez de eu passar todo o santo dia a passear a sardinha sem o saber.
Mas se vejo alguem com uma bela e redondôna verruga na cara, não lhe vou dizer "olhe, sinceramente, acho que essa verrugonga não lhe fica a matar, e hoje em dia essas coisas tiram-se em 3 minutos, e sem complicações.", primeiro porque acho que é natural que a pessoa saiba que a verruga lá está, provavelmente já há muito tempo, e portanto deve ser de estimação, e depois porque imagino que a pessoa tambem já saiba que, se se conseguem extrair tumores de dento do cérebro, tambem se conseguem extrair essas pequenas excrescências indesejáveis.
Ser sincero não tem nada a ver com ser inconveniente. Se eu me vir a falar com alguem que tem um pedaço de sardinha agarrado á bochecha eu, com toda a sinceridade, digo-lhe "olhe, parece-me que tem algo na cara", porque naturalmente gostaria que fizessem o mesmo comigo, em vez de eu passar todo o santo dia a passear a sardinha sem o saber.
Mas se vejo alguem com uma bela e redondôna verruga na cara, não lhe vou dizer "olhe, sinceramente, acho que essa verrugonga não lhe fica a matar, e hoje em dia essas coisas tiram-se em 3 minutos, e sem complicações.", primeiro porque acho que é natural que a pessoa saiba que a verruga lá está, provavelmente já há muito tempo, e portanto deve ser de estimação, e depois porque imagino que a pessoa tambem já saiba que, se se conseguem extrair tumores de dento do cérebro, tambem se conseguem extrair essas pequenas excrescências indesejáveis.

Jotace- Membro V.I.P.

- Sexo:
Idade: 44
Pontos: 2084
Data de inscrição: 25/11/2008
Re: Sinceridade
um politico nunca pode ser sincero..... senão vai para o desemprego
Politico- Membro Efectivo

- Sexo:
Idade: 28
Emprego/lazer: Mentiroso Mor
Pontos: 1022
Data de inscrição: 01/09/2009
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