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AO SABOR DO PENSAMENTO...

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Mensagem por LINO MENDES em Qui Ago 19, 2010 11:22 pm

Ao sabor do pensamento……

Esta palavra FOLCLORE


\Muitos são os que vêem com surpresa e desencanto, que altas figuras do país, não raras vezes usam o termo folclore como sinónimo de coisa de somenos.

Não te preocupes, que isso não passa de folclore.

E a mim, ainda mais do que o facto me preocupa a razão do mesmo. Por quê? Como se chegou a este estado de coisas? O que levou a que alguém seguido por muitos alguéns começasse a alterar o sentido da palavra? É que estas transformações levam décadas , e só a figuras de prestígio escutamos tal conceito.

Algum investigador nos poderá dar a resposta?

O professor Ranita Nazaré, que há alguns anos veio a Montargil realizar uma brilhante palestra sobre “aculturação”, tema que escolhera para o seu doutoramento, ainda há dias me confirmava que um dos exemplos mais flagrante deste fenómeno é o da palavra traficante que no século XIX tinha um significado bem diferente do que tem hoje. Então e ao que julgamos significaria “comerciante” e hoje estará mais ligado ao “comércio de droga”
Mas a verdade ´é que hoje em dia não há, que saibamos, um único dicionário que dê ao termo folclore um significado negativo.
Por exemplo .o PORTO EDITORA 2006 refere que FOLCLORE (sm) “é o conjunto de tradições populares nas suas variadas manifestações( música, dança ,canções, provérbios, anexins, lendas),sendo que ETNOGRAFIA nos aparece aqui inserida como “estudo dessas tradições populares” ;mas como sinónimo de FOLCLORE aparece ainda “conjunto de canções e danças populares relativas a certa época ou região “
Entretanto, ETNOGRAFIA aparece-nos mais atrás, na sua “entrada” certa, como “estudo descritivo das instituições e dos factos da civilização dos diversos povos e etnias”.

Mas atenção que o termo FOLCLÓRICO que aparecia como “respeitante ao folclore” e”próprio do folclore”tem agora mais dois significado: (pej)colorido, berrante, que em minha opinião são adjectivos que se aceitam e,(coloq)”sem grande significado”
que considero um absurdo.

Muitas palavras ,diz-nos Sofia Pereira da Silva, da referida Editora, possuem sentidos originais que derivam noutros, os quais nem sempre são noções positivas. Tais sentidos pejorativos não estão errados e devem ser registados nos dicionários. Pela nossa parte não fazemos ,naturalmente, nenhum tipo de censura, nem aplicamos critérios subjectivos no tratamento das entradas .Procuramos, pelo contrário, descrever a língua com rigor, registando os usos que os falantes fazem da língua e assinalando os sentidos coloquiais, depreciativos e outros(figurado, poético, etc.),em casos como o que refere.

~Sofia Pereira da Silva diz-me também que”como compreenderá( compreenderei) não são os lexicógrafos(nem os Dicionários) os responsáveis pela atribuição de um sentido negativo ou coloquial a uma dada palavra mas todos nós, os falantes, na medida em que constantemente alteramos sentidos, assimilamos expressões estrangeiras, transferimos termos de uma área do saber para outra, e assim asseguramos a vitalidade dos idiomas.”

Entretanto, neste contacto que fizemos com a PORTO EDITORA ficámos também a saber que” as palavras folclore e etnografia se encontram registadas no seu 1º Dicionário de Língua Portuguesa , Edição(1952) respectivamente com as definições “conjunto de tradições e crenças expressas em provérbios, contos ou canções; colectânea das canções populares relativas a certa época ou região” e “ ciência que descreve os povos quanto à raça ,língua, relegião e costumes”;

Continuamos entretanto com a dúvida , com a confusão, de quando(?) chegada a altura de novas “entradas”,em especial de novos significados. Para a Porto Editora ,cada dicionário obedece a um determinado conjunto de critérios que presidem à sua elaboração, e que se prendem com o próprio tipo de dicionário o número de entradas que regista, o público a que se destina pelo que a inclusão de novas palavras ou de novos sentidos depende, em cada caso, do projecto em questão.
Entretanto, encerramos este desabafo com o testemunho incontornável da SOCIEDADE DE LÍNGUA PORTUGUESA que nos diz:



“É evidente que não está correcto entender-se o vocábulo FOLCLORE “como sinónimo de coisa de somenos de coisa sem importância”.Só os analfabetos ou os de pouca cultura é que podem fazer tal afirmação. Basta sabermos que o folclore é o estudo das tradições populares absolutamente indispensável para estudarmos e conhecermos o valor do povo a que pertencemos.

O estudo do folclore começou na Alemanha em 1812 com trabalhos de muito valor .E, como sabemos, não só a Alemanha se preocupou com tal estudo, mas outros países, como por exemplo a Itália, a Espanha os Países Baixos, etc.

O estudo do folclore estendeu-se depois a Portugal e a outros países. Entre nós, Almeida Garrett que iniciou tal estudo pela investigação dos contos,dos adágios,dos provérbios e mais ainda como por exemplo das adivinhações, dos jogos, dos cancioneiros.

Quem afirma que folclore” é coisa de somenos, sem importância”não repara no valor desse estudo para melhor conhecermos o valor do povo a que pertencemos.”(José Neves Henriques)

LINO MENDES
Visitante
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